quinta-feira, novembro 03, 2005

Strawson e o conceito de ‘pessoa’ II --- Apreciacao critica

A meu ver, o capítulo 3 de Individuals tem 2 pontos altos: (i) a critica contra a posição da 'não-propriedade' (que tambem seria um tipo de dualismo), e (ii) o diagnostico do erro fundamental das posições dualistas: querer isolar 'mente' e 'corpo' e buscar critérios completamente independentes de aplicação para os predicados de cada uma destas esferas. Mas há pelo menos dois pontos que merecem um exame mais crítico, pois apontam para duas suposicoes fundamentais da análise strawsoniana que me parecem problematicas: a tese da 'intransferibilidade lógica da posse' de certos estados mentais, que aponta para o carater empirista da metafísica strawsoniana, e a alegação de que usos de sentenças em primeira e terceira pessoa têm uma mesma função em nossas práticas linguísticas, que aponta para a tese da prioridade do discurso em terceira pessoa para a objetividade dos enunciados linguísticos.

Quanto ao primeiro ponto, cabe dizer que o tom utilizado por Strawson para falar da dependência 'lógica' dos particulares privados em relacao `a pessoa eh muito mais causal do que lógico, e a `dependência' que parece relevante é da 'posse' num sentido muito físico do termo, como se a 'pessoa' fosse um tipo de receptáculo causal de tais particulares. Mas, mesmo concedendo que o interesse de Strawson seja mesmo o de indicar a prioridade lógica da `pessoa' para a identidade dos particulares privados, poder-se-ia atacar a posição strawsoniana a partir de uma perspectiva wittgensteiniana, segundo a qual a identidade de `particulares mentais' – como dores, sentimentos, etc. – possui uma natureza completamente diferente da identidade de particulares físicos. No caso de estados mentais, segundo essa perspectiva, nao faz sentido -- ao contrario do caso dos particulares fisicos -- distinguir entre identidade qualitativa e numérica, e, consequentemente, não ha necessidade de se buscar critérios de identidade numérica dependentes da posse por uma pessoa.

Sobre o segundo ponto, concordo com Strawson quando ele diz que predicados empregados para a atribuição de `particulares privados' devem ter um mesmo sentido tanto em auto-atribuições quanto em atribuições em terceira pessoa. Conseqüentemente, concordo com a importância e pertinência de se falar em critérios comportamentais, bem como de se dizer que aprender a usar um tal predicado é aprender a usá-lo nesses dois casos. Mas o problema reside na explicação dada por ele para esse uso, que parece assimilar a objetividade dos enunciados auto-atributivos (em primeira pessoa) à objetividade dos enunciados atributivos em terceira pessoa – como se a objetividade dos enunciados auto-atributivos devesse depender, de alguma forma indireta – que não é fácil entender extatamente qual é -- das atribuicoes em terceira pessoa. Colocando ponto de outra forma: Strawson deseja escapar dos problemas do solipsismo, buscando, para tanto, elucidar o funcionamento ordinário de nossos conceitos. Mas nessa busca ele acaba negando a legitimidade de se usar uma perspectiva na qual há prioridade do `subjetivo', negando a propria autoridade da primeira pessoa em certos contextos linguísticos. É como se o problema do solispismo só pudesse ser resolvido extraindo de nosso esquema a esfera perspectiva da primeira pessoa em relacao a seus proprios estados mentais, substituindo-a pela perspectiva da terceira pessoa, e pelos critérios intersubjetivos empregados na comunidade linguística.

A intenção de Strawson com essa manobra é salvar algo realmente muito importante em nosso esquema conceitual – a manutenção de um mesmo sentido pelos predicados em usos auto-atributivos e "outro-atributivos". Mas ele pensa que para salvar isso os próprios enunciados que fazem uso de tais predicados devem possuir um mesmo sentido, uma mesma função em nossa linguagem – que eh a de descrever estados mentais -- independentemente de serem feitos em primeira ou terceira pessoa. E, para garantir um mesmo sentido a esses dois tipos de enunciado, é necessário que os pronomes de primeira e terceira pessoa tenham uma mesma função, que é, segundo Strawson, de denotar a pessoa à qual o enunciado refere. (De fato, nessa explicação de Strawson parace estar implicita a concepcao que Wittgenstein denomina de "agostiniana" da linguagem).

Neste ponto pode-se indicar a ligacao entre a análise lógica dos enunciados de atribuição de experiências com a metafísica dos particulares mentais de Strawson: para conseguir mostrar que enunciados em primeira e terceira pessoa tem um mesmo sentido, ele acaba sendo obrigado a dar um sentido muito "estranho" aos predicados utilizados em tais enunciados, como se o conceito de 'dor x' referisse tanto à dor x particular que eu tenho, e à dor x particular que tu tens, e que são, portanto, numericamente distintas mas qualitativamente idênticas. Dessa forma, nosso conceito de 'dor X' compreenderia sob si, nas próprias palavras de Strawson, "o que é sentido, mas não observado, por X, e o que pode ser observado, mas não sentido, por outros que X" (p. 109) , garantindo assim uma linguagem objetiva, não solipsista, que não dê significados subjetivos e talvez incognoscíveis por outros para os predicados. Se, pelo contrário, Strawson tomasse tais predicados como não tendo que fazer referência a particular algum, e simplesmente tendo uma certa função peculiar nas nossas práticas linguísticas,  a questão do solipsismo poderia ser resolvida (ou descartada) de um modo muito mais adequado. Não ha necessidade de se distinguir entre dois sentidos para os predicados em questao (dependendo do uso ser feito em primeira ou terceira pessoa); o que teria um outro sentido – i. e. outra função em nossa linguagem – seriam os próprios enunciados de primeira pessoa, que fizessem uso de tais predicados. Esses enunciados não são enunciados descritivos, mas sim enunciados expressivos, que fornecem criterios (ainda que faliveis) para que os outros sujeitos atribuam e descrevam meus estados mentais.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Strawson e o conceito de ‘pessoa’ I --- Reconstrucao do argumento

O capítulo 3 de Individuals versa sobre o que Strawson denomina de 'questões do solispsismo', i.e., quais são as condições para distinguirmos entre, de um lado, nós e nossos estados de consciência, e, de outro, tudo o que não é nós mesmos ou nossos estados de consciência. Em jargao strawsoniano, o problema eh o de estabelecer as condições de uso para o conceito de `sujeito de experiência' em nosso esquema conceitual.

Visando determinar quais são essas condições, Strawson comeca analisando um esquema conceitual alternativo, o do mundo puramente audível, apresentado no capítulo 2. Strawson pergunta como poderia um som, que é um item dentro da experiência, ser também o sujeito de tal experiência, e como ele poderia estabelecer um contraste entre ele mesmo e os (demais) sons que ele experimenta. Tal procedimento visa introduzir certa "estranheza" com respeito a algo que é o caso mesmo em nosso esquema – a possibilidade de um item dentro da experiência ser também algo que tem experiências. Para investigar essa possibilidade Strawson parte das seguintes questões: (i) por que atribuímos estados de consciência a algo – e não, e.g., simplesmente dizemos que eles existem "por aí", como ``feixes de impressões'' – e mais, (ii) por que atribuir tais estados exatamente à mesma coisa da qual dizemos ter características físicas (espaco-temporais)?

A primeira tentativa de resposta consiste em atentar para o caráter único e fundamental que nosso corpo
tem na produção de nossas experiências e estados de consciência (principalmente os estados perceptivos). Apesar de ser um fato contingente que um só corpo tenha tal função, é realmente um fato crucial para nós. O problema eh que atentar para esse papel fundamental de nosso corpo ainda não responde as perguntas acima. Em primeiro lugar, isso não fornece um motivo para o fato de que tenhamos que atribuir experiências a algo (simpliciter) ao inves de nada. E mesmo se essa questao pudesse ser respondida, e o melhor candidato a possuidor de experiências fosse mesmo nosso corpo --- devido ao papel causal desse corpo na produção das experiencias relevantes --- tal resposta ainda não explicaria por que nós atribuímos características físicas e mentais a exatamente a mesma coisa (dizemos tanto que 'eu estou ferido' quanto que 'eu estou triste'), ao inves de, por exemplo, dizer que o que possui características físicas é um corpo que fica numa relação causal privilegiada com nossos estados mentais.

Essas considerações apontam para algo que Strawson estabelecerá mais adiante: a primitividade, em nosso esquema conceitual, do conceito de 'pessoa', em relação aos conceitos derivados de 'mente' e 'corpo'. A sugestao eh a de que estados mentais dependem, para o estabelecimento de sua identidade, da relação – de posse, por suposto – com um particular primitivo, a 'pessoa'. A primitividade desse particular eh o que fornece o rationale para nossa pratica de atribuir estados de consciência a algo antes que a nada. Já a pergunta sobre por que atribuir estados de consciência à mesma coisa à qual atribuímos características físicas, não é exatamente respondida dada a primitividade do conceito de 'pessoa', mas é mostra-se sem sentido, pois resulta da suposicao tacita de que os conceitos de 'mente' e 'corpo' sao independentes e primitivos em relação ao conceito de 'pessoa'.

O interessante eh que, segundo o diagnostico de Strawson, essa desatenção à primitividade do conceito de 'pessoa' estaria implícita não apenas na posição dualista cartesiana, mas também no que ele denomina de posição da 'não-propriedade' (no-ownership), que ele
atribui a Wittgenstein e a Schlick --- i.e., a posicao que nega que haja um sentido para atribuições de estados mentais a algo, posto que não haveria 'transferibilidade lógica da posse' de estados mentais; grosseiramente, se esses estados não podem ser transferidos, entao eles tambem não podem ser possuídos. Segundo Strawson, essa ultima posicao seria também um tipo de dualismo --- não um dualismo ebtre entre dois sujeitos (uma mente e um corpo), mas sim entre um sujeito e um não sujeito. O dualismo surge, tanto neste caso como no de Descartes, devido `a desatencao da prioridade lógica do conceito de 'pessoa', que leva a buscar critérios distintos e independentes para atribuição de estados mentais e físicos --- critérios estes que Descartes pensaria ter encontrado, enquanto que os partidários da 'não-propriedade' pensariam só os terem encontrado para o caso de propriedades físicas; ora, uma vez que esses ultimos seriam mais "honestos" ;-) quer os cartesianos, eles seriam levados a negar a propria existência de estados mentais qua particulares passíveis de qualquer posse ou atribuição.

O que estas duas posições ``dualistas'' não observariam é que há bons critérios para se atribuir estados de consciência, não para egos, mas para pessoas, e que sao esses mesmos critérios que excluem a `transferibilidade lógica da posse' de tais estados. A falha fundamental do sualismo seria não atentar para o fato de que é condição para que possamos atribuir estados de consciência a nós mesmos que possamos atribuí-los também a outros, i.e., o sentido dos predicados utilizados na atribuição de estados de consciência só é compreendido atentando para os dois aspectos de seu uso: em primeira e em terceira pessoa. Os critérios de que fala Strawson são comportamentais – é observando outros sujeitos que posso dizer deles que estão nesse ou naquele estado mental.

Dada essa analise, o que ainda poderia incomodar um filósofo é o fato de que nem sempre temos que observar nosso próprio comportamento para dizer de nós mesmos que estamos no estado mental X --- o que implicaria que o sentido do predicado não seria o mesmo nos casos de atribuição em primeira e terceira pessoa. Como poderia o sentido ser o mesmo, se os critérios de verificação são tão distintos? Esta pergunta, segundo Strawson, equivale à questão sobre 'como é possível o conceito de 'pessoa'?'. Ou seja, entender satisfatoriamente o papel desse conceito em nosso esquema conceitual implica estar consciente de um fato bastante geral sobre tal esquema: que nós vivemos em uma comunidade de seres humanos, todos com uma certa natureza comum. É por isso que podemos, entre outras coisas, interpretar movimentos de um corpo humano como ações, i.e., como um movimento imerso em um contexto de intenções. Isso significa, para Strawson, simplesmente que

nós vemos [os movimentos dos outros seres humanos] como movimentos de indivíduos de um tipo ao qual também pertence aquele indivíduo cujos movimentos futuros e presentes nós sabemos sem observação [i.e., nós mesmos]; isso quer dizer que nós vemos os outros como auto-atribuidores, não na base de observação, do que nós atribuímos a eles com esta base. (p. 112)

Entender um predicado mental do tipo em questão é entender que ele cobre tanto o que é sentido mas não observado por mim, quanto o que é observado mas não sentido pelos outros. O sentido destes predicados contém estes dois aspectos ao mesmo tempo, e por isso, os predicados não seriam equívocos.

terça-feira, novembro 01, 2005

David Kaplan --- Demonstratives II: Contextos de uso vs. Circunstancias de avaliacao

Kaplan sugere que devemos fazer uma distincao clara entre:
  1. contextos de uso; e
  2. circunstancias de avaliacao.
Todo contexto de uso possui um agente (falante), e isso implica que uma regra de designacao ( RD) para um termo diretamente referencial deveria ser:

(RD): Em todo contexto possivel de uso o dado termo refere ao agente do contexto.

Mas RD nao pode ser usada para fornecer um objeto relevante a cada circunstancia de avaliacao , pois essas, em geral, nao possuem agentes. Assim, suponhamos que eu diga:

Eu nao existo.

Sob que circunstancias, pergunta Kaplan, poderia isso que eu disse ser verdadeiro? Uma boa resposta seria: em circunstancias nas quais nao houvesse agentes (p. 495). Mas parece um contrasenso afirmar que a frase acima seria verdadeira sse o falante da circunstancia nao existe na circunstancia. Se essa fosse a analise correta, seguir-se-ia que:

Eh impossivel que eu nao exista. (p. 498)

A licao aqui eh que, apesar de indexicais possuirem um `conteudo descritivo', esse conteudo eh relevante apenas para determinar um referente num contexto de uso, e nao para determinar um individuo relevante numa circunstancia de avaliacao . Kaplan apresenta explicitamente essa conclusao na sequencia, quando afirma que a analise anterior deveria ter estabelecido o seguinte:

(T1) O significado descritivo de um indexical puro determina o referente do indexical com respeito a um contexto de uso mas ou eh inaplicavel ou irrelevante para determinar um referente com respeito a uma circunstancia de avaliacao.

E seria por essa razao que a seguinte tese (que nao passa de uma versao mais elaborada do Principio 2) obteria suporte:

(T2) Quando o que foi dito ao usar um indexical puro num contexto c deve ser avaliado com respeito a uma circunstancia arbitraria, o objeto relevante eh sempre o referente do indexical com respeito ao contexto c. (p. 500)

segunda-feira, outubro 31, 2005

David Kaplan --- Demonstratives I: Introducao

Finalmente, gracas a uma forcinha do Cesar, estou lendo o artigo ``Demonstratives'', de David Kaplan (In: Themes from Kaplan, Almog, Perry, Wettstein (eds.), New York, Oxford, Oxford U.P., 1989, pp. 481--563). `A medida em que for lendo o artigo, postarei resumos dos pontos que me parecerem mais relevantes.

Kaplan comeca o artigo justificando a importancia do tratamento dos demonstrativos. A primeira motivacao que ele aponta eh logica, mais especificamente, advinda da analise de um problema central da logica modal: o da identificacao de individuos atraves de mundos (possiveis), que parece ter como condicao de possibilidade a existencia de proposicoes singulares, i.e., proposicoes que contem termos que referem imediatamente ou diretamente a seus objetos, sem o intermedio do `sentido' (Sinn) fregeano (p. 483-6). Outras motivacoes advem das analises filosoficas (da filosofia da linguagem e do significado) de Donnellan --- descricoes definidas em uso referencial---, Putnam --- a fixacao da referencia de termos para especies naturais nao eh determinada pelo Sinn que sujeitos adquirem ao aprender o uso desses termos --- e Kripke --- critica ao descritivismo (p. 486-7). A sugestao de Kaplan eh a de que todos esses tratamentos apontam para a necessidade de uma teoria da referencia direta, e a analise dos demonstrativos seria a area na qual essa teoria possui a aplicacao mais plausivel (p. 487).

Esclarecimentos terminologicos:
  • NDEXICAIS (geral --- termos que referem imediatamente, dependendo do contexto)
  • DEMONSTRATIVOS (indexicais + demonstracao, e.g., `isto')
  • INDEXICAIS PUROS (indexicais sem demonstracao, e.g., `eu', `agora', `aqui') (p. 490-91)
Dois ``principios obvios'':
  1. O referente de um indexical puro depende do contexto, e o referente de um demostrativo depende da demonstracao associada.
  2. Indexicais, puros e demonstrativos igualmente, sao diretamente referenciais.
Uma vez que, segundo Kaplan, (2) nao costuma ser tao explicitamente formulado quanto (1), no contexto da discussao filosofica sobre demonstrativos, esse principio merece um argumento em seu suporte. Tratarei desse argumento no proximo post sobre o topico.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Problemas com o externalismo II: A (velha) imagem da `mente' separada do `mundo'

Um outro erro ou confusão comum do externalismo, a meu ver, é a suposição geral de uma imagem na qual mente e mundo encontram-se (metafísica e epistemicamente) isolados um do outro. Se a única diferença entre individualismo e anti-individualismo consiste em abraçar um dos lados dessa dicotomia como sendo o responsável (segundo alguns, o responsável causal) pelos conteúdos de nossos pensamentos, então não teremos dado um passo muito grande na direção de um modelo alternativo de explicação dos fenômenos mentais. Para tanto o que é necessário é abandonar a própria dicotomia, e parar de pensar em significados como ‘coisas’, ‘objetos’ ou ‘entidades’ — sejam elas internas ou externas. Como nos lembra Peter Hacker (1998), “Grosseiramente falando, o significado de uma palavra é seu uso. E o uso de uma palavra, o modo como ela é usada, não é algo dentro ou fora da cabeça”. Não é preciso pensar nos significados das palavras como ‘objetos externos’ para que eles se tornem públicos, compartilhados, “moedas comuns” para usar a metáfora de Burge.
Abandonar a exigência de identificar significados e / ou conteúdos de pensamentos como se fossem ‘objetos’ não resolve, por si só, o problema do autoconhecimento psicológico, mas facilita muito a tarefa. Um outro elemento que me parece fundamental para obter essa solução, que é uma compreensão mais adequada do tipo de (auto-)conhecimento envolvido nesses casos, e do que faz com que o sujeito possa ter algum tipo de privilégio sobre ele. Eh para clarificar esse ponto que penso que vale a pena atentar a posicoes como a de Richard Moran (2001) e de Wittgenstein (1976).

Referencias:

HACKER, P. M. S. Davidson on Intentionality and Externalism. Philosophy, n. 73, p. 539–552, 1998.


MORAN, R. Authority and Estrangement: An Essay on Self-Knowledge. Princeton and Oxford: Princeton University Press, 2001.


WITTGENSTEIN, L. Philosophical Investigations. Oxford: Basil Blackwell, 1976. Tr. G. E. M. Anscombe.

Problemas com o externalismo I: O que podemos nos saber a priori afinal?

O externalismo ou anti-individualismo surge como uma proposta alternativa em relação ao modelo individualista tradicional, e visa solucionar alguns dos principais problemas herdados dessa tradição — tais como o do contato entre a ‘mente’ e o ‘mundo’ (o ‘problema do mundo externo’), e do conhecimento do conteúdo dos estados e eventos mentais de outros sujeitos (o ‘problema das outras mentes’). Para tanto, a tese central do anti-individualismo é a de que o conteúdo dos estados e eventos mentais dos sujeitos é constituído, ao menos parcialmente, por fatores ‘externos’ à sua mente, no sentido de que tais fatores não constariam numa análise que tomasse por base apenas o sujeito, isoladamente do mundo a seu redor — seu ambiente físico, social e lingüístico. Uma das dificuldades geradas por essa tese diz respeito à possibilidade de conhecimento, por parte do sujeito, de seus próprios estados e eventos mentais — o que doravante gostaria de chamar, seguindo uma denominação proposta por Christopher Peacocke (1998), de ‘autoconhecimento psicológico’. A razão para esse aparente problema é simples: na exata medida em que os conteúdos desses estados e eventos se tornam ‘externos’ e públicos, acessíveis a partir da perspectiva da terceira pessoa, eles parecem perder a característica oposta, de serem acessíveis de alguma maneira peculiar, especial, autoritativa ou privilegiada, pelo próprio sujeito, i.e., a partir da perspectiva da primeira pessoa.

Um dos elementos centrais nesse debate acerca do autoconhecimento de estados e eventos mentais eh a questao sobre a possibilidade de conhecermos esses estados e eventos mentais a priori. Mas o que exatamente um sujeito sabe a priori, afinal, quando, e.g., sabe que está pensando que p? Para responder a essa questão, gostaria de retomar o resultado do argumento de Kripke em Naming and Necessity (Kripke, 1972 --- na minha opiniao, um dos precursores do externalismo). Segundo esse argumento, o significado de um nome, ou de um termo para espécie natural como ‘água’, é fixado como sendo, respectivamente, quem quer que os falantes de nossa comunidade nomeiem com esse nome, ou o que quer que compartilhe das características da amostra utilizada no momento da fixação da referência daquele termo. Ora, mas se é assim, então mesmo em situações contrafactuais como a da Terra Gêmea (Putnam, 1975) há algo que sabemos a priori, algo que poderia ser explicitado por uma sentença como ‘sei que estou pensando que o que quer que minha comunidade lingüística chama de ‘água’ é molhado’. Ocorre que aquilo que está à minha frente, por hipótese, não é aquilo que minha comunidade lingüística chama de ‘água’, e, portanto, eu de fato cometo algum erro nessa situação. Mas qual é exatamente a natureza desse meu erro? No caso em que estou diante de XYZ, e não de H2O, meu erro é empírico, e só pode ser corrigido por meio de uma ‘investigação empírica’ — não é um erro acerca do conhecimento do significado dos termos que emprego. Eu continuo empregando — e sabendo que emprego — o termo ‘água’ para falar sobre aquilo que minha comunidade considera água, i.e., H2O. É absurdo pensar que uma mudança lenta me torna parte ativa de uma nova comunidade lingüística, fazendo-me usar os termos da maneira que aí são usados, à revelia de minhas próprias intenções. Justamente por isso é absurdo afirmar, como Ludlow (LUDLOW, P.; MARTIN, N.(eds.) 1999), que “devido a mudanças não detectadas em minha comunidade lingüística, o conteúdo de meus pensamentos sobre chicory mudaram” , ou que “passado suficiente tempo na Terra-Gêmea, pensamentos sobre água dão origem a pensamentos sobre àgua-gêmea”.

Em outras palavras, nós optamos por deferir o significado de nossos termos a uma determinada comunidade lingüística, e é justamente esse fato que possibilita um tipo de conhecimento a priori — o conhecimento da gramática de nossa linguagem; não há necessidade de ‘investigar nosso ambiente’, em cada situação particular, para saber acerca do que estamos pensando; a garantia de que estamos de posse desse tipo de conhecimento a priori deriva do fato de que também nós somos parte dessa comunidade lingüística, e assim compartilhamos com essa comunidade do conhecimento (gramatical) do uso de nossos conceitos. A propósito, é porque nossas práticas lingüísticas funcionam desse modo que a memória preservativa pode ser vista como funcionando de maneira análoga à anáfora, como quer Burge (ibid.) — é justamente porque supomos que os sujeitos (tacitamente) mantém a intenção de deferir o significado de seus termos à sua comunidade lingüística original que é plausível pensar que, em casos como os de mudança lenta, o sujeito pode preservar o conteúdo de pensamentos passados, ainda que se encontre em um ambiente diferente daquele no qual expressou tal pensamento pela primeira vez.

É claro que nem todos os erros em casos de mudanças lentas necessariamente serão ‘empíricos’, no sentido acima. O exemplo original de Burge, do sujeito que, na situação atual, emprega o termo ‘artrite’ para uma dor na coxa, é claramente um caso de erro gramatical, e, justamente por isso, não pode ser corrigido por meio de uma ‘investigação empírica’ — nem tampouco por meio de uma ‘investigação empírica’ das práticas lingüísticas de nossa comunidade. O que preciso é aprender a gramática do termo em pauta, e isso é muito diferente. Por outro lado, em casos como esse, penso que Davidson (ibid.) tem razão ao afirmar que o erro do sujeito também não é um erro acerca do conteúdo de seus pensamentos — tanto que o sujeito pode explicitar esse conteúdo de um modo que todos nós compreenderemos o que ele estava pensando, e lhe atribuiremos um pensamento (ou, mais exatamente, uma crença) falso(a). Em todo caso, pace Davidson, não há um critério único e infalível para determinar o conteúdo das crenças do sujeito nessas situações.

Referencias:

LUDLOW, P.; MARTIN, N. (Ed.). Externalism and Self-Knowledge. Standford, California: CSLI Publications, 1998.
KRIPKE, S.
Naming and Necessity. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1972.

PUTNAM, H.
The Meaning of ‘Meaning’. In: Mind, Language, and Reality: Philosophical Papers, Vol. 2. Cambridge: Cambridge University Press, 1975. p. 215–271.

Links: Redacao e estilo, LaTeX, e Filosofia politica

Artigos do prof. Peter Smith:


Filosofia Politica:

Por fim, um manual sobre o uso da classe Memoir do LaTeX, boa para teses e artigos (em pdf):

terça-feira, outubro 25, 2005

Link de artigos online sobre externalismo (e outros assuntos)

Procurando artigos sobre externalismo no Google, encontrei uma compilacao muito boa de inumeros artigos online (Online Papers on Consciousness, Compiled by David Chalmers). O link para a pagina inicial eh:

http://consc.net/online.html

Na parte II tem varios classicos da discussao sobre externalismo, dentre outras coisas:

http://consc.net/online2.html#extself

E ai vai o link do Blog do Cesar, cuja ideia inspirou o presente Blog, que trata de assuntos muito proximos aos que ando estudando:

http://externalismo.blogspot.com

Texto sobre o pronome de primeira pessoa e a autoconsciencia na Intelectu

Aqui esta o primeiro (e por ora o unico) texto que publiquei sobre o assunto em pauta:

"Eu, eu mesmo e a autoconsciencia: Distinções entre as perspectivas de primeira e de terceira pessoa" (Intelectu no 8 - Maio de 2003)

Pretendo utilizar esse texto como um ponto de partida para a primeira secao de minha tese. Reproduzo abaixo a introducao do mesmo, que diz o seguinte:

O objetivo geral deste texto será oferecer um breve balanço do debate protagonizado por alguns autores contemporâneos, respeitante ao tratamento de duas noções que, principalmente a partir da idade moderna, têm recebido um status muito importante dentre os vários temas investigados pela filosofia: as de sujeito (ou 'eu') e autoconsciência.

Para dar início a este estudo gostaria de introduzir algumas definições bastante comuns no tratamento destas noções, que deverão na sequência permanecer sempre em nosso horizonte de análise:

1. 'eu' é a palavra cada um de nós usa para falar de si mesmo;
2. autoconsciência é a consciência que um sujeito tem de si mesmo;
2.1. autoconsciência é um conhecimento ao qual o sujeito chega através de um processo de introspecção. Tal conhecimento é distinto do conhecimento dos objetos percebidos através de nossos sentidos, pois trata de um objeto (o sujeito) com certas características especiais.

A subsequente argumentação visa diagnosticar alguns dos principais problemas ou confusões filosóficas subjacentes às definições acima, e para tanto procederá do seguinte modo: na seção I apresentar-se-ão os principais argumentos de Elisabeth Anscombe e Anthony Kenny contra a definição (1); na seção II tratar-se-á da necessidade de auto-atribuições diretas de ações ou estados de consciência por parte de um sujeito para a posse de autoconsciência. Na seção III introduzir-se-á outro critério importante para a autoconsciência, que é uma função de nosso uso do pronome 'eu'. Na seção IV estabelecer-se-á a ligação existente entre auto-atribuições diretas e este último uso de 'eu', mostrando assim quais são as efetivas relações entre as noções de 'eu' e autoconsciência, e, consequentemente, a insatisfatoriedade da interpretação da definição (2) avançada em (2.1).

Vale salientar que minha presente opiniao eh a de que, apesar de a definicao (1) ser insuficiente para explicar a funcao do pronome de primeira pessoa em nossas praticas linguisticas, ela nao esta errada. De fato, penso que ela esgota a funcao semantica do `eu', mas o que ela nao faz eh contemplar a dimensao pragmatica de seu uso, que eh mais relevante ou fundamental do ponto de vista da compreensao da ligacao entre o uso desse pronome e a natureza da autoconsciencia.

Ideias para uma Introducao historica da tese: Wittgenstein vs. toda a historia da filosofia?

Anscombe, Malcolm e Hacker, defensores da leitura nao referencial do
pronome de primeira pessoa (ppp), apresentam a posicao de Wittgenstein
como sendo um contraponto a toda a tradicao filosofica, na medida em
que toda essa tradicao teria suposto a tese de que o ppp possui uma
funcao referencial. Segundo esses interpretes, Descartes pensava que o
ppp ('eu') faria referencia a uma substancia imaterial, distinta da
substancia corporea. Ja Hume nega que o ppp possa fazer referencia a
uma tal substancia, pois, dados seus compromissos empiristas, uma vez
que nao ha nenhuma `impressao' do `self', nao ha como se saber que
esse `self' seja o referente do ppp. Mas Hume continua aceitando a
tese referencial, na medida em que defende que o ppp refere a um
`feixe de percepcoes' (Tratado, Livro I, Secao VI). Reid parece sustentar nao apenas que `eu' eh referencial, mas que funciona como um `nome logicamente proprio' (no sentido que essa nocao possui em Russell, e no Tractatus de Wittgenstein).

Anthony Kenny, seguindo a linha de argumentacao de Elisabeth Anscombe, defende que muitas das confusoes presentes no tratamento filosófico da nocao de sujeito (the self) "é um exemplo de contra-senso dos filósofos produzido por um entendimento incorreto do pronome reflexivo" (Anthony Kenny, "The First Person", In: The Legacy of Wittgenstein, Basil Blackwell, Oxford, 1984, p. 81). Dado esse diagnostico, e natural esperar que um entendimento correto do pronome reflexivo possa elucidar o tratamento da nocao de sujeito, e eh justamente isso que, segundo esses interpretes, deve-se buscar na obra madura de Wittgenstein. Peter Hacker chega mesmo a afirmar em Insight and Illusion (1989) que Wittgenstein fornece uma "refutacao elegante e compreensiva do solipsismo e do idealismo" em sua "fase madura" (cf. p. 216). O locus classicus para essa "refutacao" seriam os paragrafos 398--410 das IF.

Parece-me, contudo, que Wittgenstein nao precisa negar a tese da referencialidade
--- o que seria extremamente contra-intuitivo --- para fornecer uma
alternativa em relacao ao tratamento tradicional do sujeito. O que eh
(talvez) inovador em sua filosofia eh a indicacao de que enunciados
`auto-atributivos' acerca de estados, eventos e /ou atitudes mentais,
feitos em primeira pessoa do singular, no presente do indicativo,
possuem um carater expressivo antes que descritivo. Mas para
explicar esse carater nao eh necessario negar a concepcao referencial. Discordo tambem que Wittgenstein forneca uma "refutacao" do solipsismo nos paragrafos 398--410. Mas a justificacao dessas opinioes sera tema para uma outra ocasiao.