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terça-feira, março 11, 2008

Resumo para o XIII Encontro da Anpof

A ANPOF estará realizando o XIII Encontro Nacional de Filosofia, de 6 a 10 de outubro de 2008, na cidade de Canela, na serra gaúcha. Abaixo segue o resumo do texto que apresentarei no evento:



Grupo de trabalho Ceticismo

Jonadas Techio

Antiindividualismo e Autoconhecimento: Uma ‘solução cética’ para um ‘problema cético’?

Há muitas variedades de antiindividualismo, mas em cada uma delas encontra-se alguma versão da tese segundo a qual nossos conteúdos mentais são constituídos, pelo menos parcialmente, por ‘fatores externos’—tais como objetos físicos (que existem ‘fora da cabeça’) ou relações sociais com outros seres humanos. Essa tese parece livrar o antiindividualismo de alguns dos principais problemas que afligem a ‘tradição individualista’, tais como o ‘problema do mundo exterior’ e o ‘problema das outras mentes’. Por outro lado, ela gera uma nova dificuldade, que é dar conta do autoconhecimento psicológico: dado que meus conteúdos mentais são parcialmente constituídos por fatores externos, e dado que tais fatores podem ser-me inacessíveis no momento em que enuncio um pensamento particular empregando o conceito ‘X’, como posso saber que esse pensamento é sobre X e não sobre outra coisa, e.g., Y? Essa dificuldade gerou um intenso debate na literatura recente. O objetivo desta comunicação será descrever e avaliar o modelo do funcionamento da linguagem humana assumido no ponto de partida desse debate. A inspiração para essa avaliação é a crítica apresentada por Stanley Cavell em sua leitura da ‘solução cética’ para o ‘problema cético’ da normatividade lingüística, notoriamente atribuída a Wittgenstein por Saul Kripke. A tese central que será defendida é que os antiindividualistas, assim como Kripke, partem de uma concepção distorcida de nossas práticas comunicativas, que desloca a responsabilidade da correção lingüística (do que queremos dizer com o que dizemos) para algum ‘fator externo’, tal como ‘o mundo’, ou ‘a comunidade’. Ao assumir esse modelo impessoal da normatividade, os antiindividualistas apresentam o problema da correção lingüística pelo avesso, como se o único ou principal risco envolvido nas trocas comunicativas fosse o repúdio, por parte da comunidade, daquilo que queremos dizer com nossas palavras, e nunca o contrário—i.e., o custo envolvido no afastamento da comunidade com a qual estamos desde o início harmonizados, e da qual herdamos nossa linguagem. Essa inversão pode explicar porque a ‘solução compatibilista’ é vista por alguns críticos como ainda mais cética do que o problema que a originou. Ela também leva à suspeita mais geral de que o antiindividualismo talvez constitua uma (nova?) forma de evasão filosófica (evasão, i.e., da responsabilidade pelo que dizemos). Conhecer o conteúdo de nossos estados mentais, e saber sobre o que estamos falando, são, de fato ‘atividades de risco’—mas o risco aqui não reside tanto na possibilidade (tão cara ao cético) de que ‘o mundo’, ‘as regras da comunidade’, ou o que quer que seja, mudem inadvertidamente (‘pelas nossas costas’), e sim na possibilidade de nos distanciarmos, pelas mais variadas razões, do mundo e dos demais falantes. O risco, portanto, não está tanto ‘lá fora’, mas antes ‘aqui dentro’, no modo como cada um de nós enfrenta a responsabilidade de se posicionar frente ao mundo e aos demais, não apenas na condição de indivíduo, mas antes de herdeiro e representante de uma comunidade lingüística, e de uma forma de vida.

sexta-feira, abril 07, 2006

Elementos heurísticos para uma interpretação mais "caridosa" de Hume

CRENÇA E CAUSALIDADE:

Mas como pode a experiência passada ser um fundamento para assumir que tal e tal irá ocorrer posteriormente? – a resposta é: que conceito geral nós temos de fundamentos para este tipo de assunção? Este tipo de enunciado sobre o passado é simplesmente o que nós chamamos de um fundamento para assumir que isso irá ocorrer no futuro. – E se você estiver surpreso que estejamos jogando este jogo eu remeto você ao efeito de uma experiência passada (ao fato de que uma criança que se queimou teme o fogo).

Ludwig Wittgenstein (PI, § 480)

CRENÇA E CAUSALIDADE:


Ao leitor do Tratado da Natureza Humana, de David Hume, acostumado à caricatura do filósofo cético que duvida que o sol possa nascer amanhã, deve parecer surpreendente notificar várias semelhanças com algumas passagens das Investigações Filosóficas, ou de Sobre a Certeza, nas quais Wittgenstein trata de temas tais como a crença na uniformidade da natureza, as razões para crer, etc. E isso não se deve apenas à distância histórica e, ao menos até prova em contrário, filosófica que os separa. O que talvez possa parecer mais estranho, na verdade, é que, por mais que Wittgenstein seja incompreendido ou mesmo criticado, parece que ninguém jamais pensou em acusá-lo de duvidar de um fenômeno tão corriqueiro quanto o nascimento do sol amanhã.


Esta breve consideração não pretende servir de apoio a nenhuma tese exegética peculiar, tal como a de que Hume seria um "wittgensteiniano avant la lettre". Senão por outro motivo, ao menos porque tão logo me ponho a entrever esta possibilidade, me deparo com objeções do tipo: com isso você está tentando explicar o "obscurius per obscuris". Mas ela deve servir ao menos como indicação heurística para compreender algumas seções do Tratado da Natureza Humana nas quais Hume analisa nossa crença na causalidade, na uniformidade da natureza, etc. Colocando o ponto nos termos do meu post anterior, essa é uma maneira de explicitar alguns dos preconceitos filosóficos que inevitavelmente movem minha análise da filosofia humeana.