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Referências:
PUTNAM, H. Reason, Truth and History. Cambridge: Cambridge University Press, 1981.
RUDD, A. Expressing the World: Skepticism, Wittgenstein, and Heidegger. Chicago and La Salle, Illinois: Open Court, 2003.
PUTNAM, H. Reason, Truth and History. Cambridge: Cambridge University Press, 1981.
RUDD, A. Expressing the World: Skepticism, Wittgenstein, and Heidegger. Chicago and La Salle, Illinois: Open Court, 2003.
1. Witt diz que problemas filosóficos -- TODOS os problemas, pois senão o desafio seria fácil -- se originam de uma 'imagem' ligada ao nosso uso da linguagem.
2. 'Imagem' é um termo metafórico, logo obscuro e pouco útil como explicador de coisas inexplicadas. O que é uma imagem? Pelo que entendi, a 'imagem' é a extrapolação do que funciona em casos paradigmáticos para todos os casos. No exemplo de Kant, tomo como 'imagem' ou caso paradigmático de entidade, de coisa, de objeto, as entidades delimitadas no tempo e no espaço. Depois me fodo, quando tento empregar tal paradigma para todos os casos, inclusive dores.
3. Witt diz que refletimos sobre noções filosóficas a partir de determinada imagem. Eis a origem do problema filosófico. Penso na identidade a partir de certa imagem e me fodo, fico cheio de problemas filosóficos.
4. O que precisamos pensar criticamente, se é que o que eu disse acima faz o mínimo de justiça à posição de Witt, é se tal teoria faz o mínimo de justiça ao que é a filosofia. Você pede para mim apresentar ao menos um caso de problema filosófico que não possa ser reduzido ao esquema da imagem. Bom, se o esquema tem a ver com o que disse acima, meu problema é o oposto: achar ao menos um problema filosófico que caiba no mesmo. Não consigo ver nenhum.
5. Vejamos o caso atribuído a Kant. Não sei se o Kant histórico cabe em tal exemplo, isto é, se ele tem problemas com a identidade do mental porque extrapola o paradigma do objeto físico para a entidade mental. Não importa. Se ele faz tal extrapolação, ele realmente tem um problema, e se trata de um problema filosófico, sem dúvida.
6. O problema de Kant seria a 'imagem,' o paradigma muito curto? Acho que essa seria uma maneira estranha de explicar o que se passa. Não seria melhor dizer que Kant tem um conceito de objeto muito restrito?
7. Dizer que o conceito é inadequado não é o mesmo que dizer que uma imagem ruim gerou um problema. Em um caso se supõe que um conceito mais adequado pode tratar melhor a situação. Em outro se supõe, ao que parece, que outro conceito, o 'mais adequado,' seria apenas outra imagem, e geraria problemas, tal como o primeiro.
8. Enfim, acho que esse negócio de 'imagem' não é uma boa maneira de retratar a filosofia.
Curioso trecho: As pessoas continuam falando que a filosofia não progride realmente, que continuamos ocupados com os mesmos problemas filosóficos que preocupavam os gregos. é porque nossa linguagem permaneceu a mesma e continua nos seduzindo a perguntar as mesmas questões. Até quando continuar existindo um verbo `ser' que parece funcionar do mesmo modo que o verbo `comer' e `beber', até quando continuarmos tendo os adjetivos `idêntico', `verdadeiro', `falso', `possível', até quando continuarmos a falar de um rio do tempo, de uma porção (expanse) do espaço, etc. etc., as pessoas continuarão tropeçando sobre as mesmas dificuldades enigmáticas e encontrar-se-ão olhando fixamente para algo que nenhuma explicação parece capaz de clarificar.
Nunca vi os problemas filosóficos desta maneira, e encontro dificuldade em achar justificação para tal visão. "Com licença, você está dizendo que problemas filosóficos são efeitos colaterais da linguagem?" A idéia me parece absolutamente injustificada. Me parece difícil ver como o problema da identidade pode ser reduzido a um problema lingüístico, só para dar um exemplo. Quero saber o que é, para uma coisa, ser uma coisa. O que isso tem a ver com a linguagem?
Isso pra não falar noutro ponto: Como assim a filosofia não progride? Olha, só pra dar um exemplo, do Descartes que acredita em graus do ser a nós que nos livramos disso houve muito progresso.
A intenção original dos defensores do anti-individualismo é solucionar vários problemas tradicionalmente ligados à explicação filosófica dos fenômenos mentais — em especial, os problemas céticos em relação à possibilidade de conhecimento de 'outras mentes' e do 'mundo externo'. Mas, independentemente do sucesso em resolver esses problemas, essa posição gera novas dificuldades. Uma das mais relevantes diz respeito à possibilidade de conhecimento direto, autoritativo e `transparente', por parte do sujeito, do conteúdo de seus próprios estados e eventos mentais — o que podemos chamar, seguindo uma denominação proposta por Christopher Peacocke, de 'autoconhecimento psicológico. Nesse sentido — como costuma ser o caso de todas as propostas que surgem como alternativas às ortodoxias na história da filosofia — a posição anti-individualista aparentemente peca pelo extremo oposto ao do individualismo, e, ao salientar demasiadamente as características públicas dos fenômenos psicológicos, leva à conclusão admitidamente absurda de que nenhum desses fenômenos poderia ser conhecido pelo próprio sujeito, indepententemente de algum tipo de investigação empírica do próprio ambiente físico e social que o rodeia.
Não faltam na literatura tentativas de solucionar esse problema. Mas aqui gostaria de mencionar uma em especial que me parece bastante promissora, embora não tenha recebido a atenção que lhe seria devida. Trata-se da proposta de Lucy O'Brien, no capítulo ``On Knowing One's Own Actions'', do livro Agency and Self-Awareness (Johannes Roessler e Naomi Elian (eds.), Clarendon Press, Oxford, 2003, pp. 358--382). O'Brien começa esse capítulo afirmando o seguinte:
Dados os debates recentes acerca do auto-conhecimento e da autoridade da primeira pessoa, é surpreendente que não tenha havido mais discussão sobre nosso conhecimento de nossas ações. Isso é surpreendente porque nosso conhecimento de nossas próprias ações parece, prima facie, compartilhar muitas das características de nosso conhecimento de crenças e percepções que deram origem àquele debate. (p. 359)
De fato, como O'Brien salienta numa nota, especialmente na década de 60, a questão sobre o autoconhecimento de ações voluntárias recebeu uma atenção central por parte dos filósofos, mas acabou sendo colocada de lado no debate contemporâneo. Perguntas tais como `` como sabemos que um movimento de nosso corpo -- como o de levantar meu braço -- é uma ação voluntária minha, antes que simplesmente uma ocorrência física que em nada depende de minha vontade?'' apresentam um problema acerca do autoconhecimento de ações que tem muito a ver com o problema do autoconhecimento psicológico -- como expresso pela pergunta: `` como sabemos que o que estamos vendo água (i.e., H2O) e não água-gêmea (i.e., XYZ)?'' -- pois em ambos os casos o que queremos é uma explicação para a possibilidade de um conhecimento direto, independente de evidência, transparente e autoritativo, acerca de algo no mundo. É claro que tal paralelo supõe uma análise ``externalista'' da própria ação voluntária, e é justamente desse tipo de análise, que reputo wittgensteiniana, que O'Brien parte. (Apenas para confrontar, um tratamento ``internalista'' da ação voluntária seria aquele que a trata como um evento constituído de dois elementos, o (mero) movimento físico no mundo, e a intenção (desejo, etc.), tomado como um elemento ``dentro de nossas cabeças'', que seria a causa daquele movimento). Dada essa suposição, aparentemente não há nenhuma razão de princípio para privilegiar um problema a outro. Como salienta O'Brien: ``ações são fenômenos psicológicos tão primitivos quanto crenças e percepções'' (pp. 358--359).
Mas na sequência do texto O'Brien vai ainda mais longe: ao analisar o caráter consciente do que ela chama de "estados mentais passivos", tais como crenças e percepções, ela argumenta que esse caráter seria parasitário e derivado de uma forma mais fundamental de consciência (aqui poderíamos dizer, de autoconhecimento), que é a consciência de "estados não-passivos", em última instância, do tipo de consciência que temos de algumas de nossas ações voluntárias básicas, e sob certas descrições também tomadas como básicas, tais como a ação de erguer o meu braço — as quais se nos apresentam como sujeitas a um tipo de controle de nossa parte para iniciá-las e pará-las.
Esse tipo de consciência do controle sob ações básicas, argumenta O'Brien, fundamenta as características de autoridade, relativa aprioricidade e transparência do conhecimento de tais ações. Para tratar apenas de um caso, o da autoridade: ``Uma vez que [o agente] não possua evidência contrária'' (note-se aqui o paralelo com a estratégia externalista para solucionar o problema do autoconhecimento psicológico), ``ele está autorizado a supor que seus sistemas motores estão funcionando propriamente e que ele tem, na base de ações passadas, uma apreensão verídica das ações básicas gerais e particulares abertas a ele'' (p. 381). O agente então delibera, e escolhe um curso de ação sobre o qual ele tem autoridade para descrever -- não obstante, N.B., a possibilidade de falhar, como no caso em que seu sistema motor não funciona corretamente, e, por conseguinte, no qual sua suposição inicial é falsa. (Paralelo com o externalismo: o sujeito pode ter sido transportado à Terra-Gêmea sem saber, e nesse caso sua suposição inicial, de que está no mesmo ambiente, é falsa, mas isso (supostamente) não põe em risco a autoridade que ele tem sobre o conteúdo de seus estados mentais quando aquela condição está satisfeita, ou seja, ele está na Terra).